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Êxodo Urbano - De Volta aos Quilombos ou Da Necessidade de Retorno Literal e Simbólico à Terra


“Se Palmares não vive mais, faremos

Palmares de novo”. José Carlos Limeira


A cidade não é criação europeia. Muito antes de os brancos engatinharem na tentativa de construção de estruturas de engenharia, Kush, Etiópia, Axum, Nok, Ghana, Songhay e Kemet já operavam maravilhas arquitetônicas. Certamente que uma cidade não é apenas seu aspecto aparente, isto é, as construções e aparatos manufaturados, ela é, mais que isso, a lógica de reprodução, manutenção e desenvolvimento destes aparatos e dos grupos que a animam. As cidades criadas por aqueles povos negros, portanto, diferiam absolutamente das cidades europeias posteriores porque respondiam aos modos de vida específicos de seus criadores, ou seja, encarnavam seus valores éticos, políticos, filosóficos, econômicos, etc.


A cidade como a conhecemos hoje é o maior e mais totalizante produto do mercado. Porém, ela é também o lugar onde todos os outros produtos são fabricados, de modo que se autofabrica a si mesma como corolário da onipotente racionalidade técnica que a tudo submete à condição de mercadoria. Apesar de soar como um truísmo, a cidade é estritamente necessária para a reprodução do modo de produção econômico atual, entretanto, menos óbvio e mais importante que isso, ela é a forma mesma que o modo de produção assumiu para a manutenção de suas dinâmicas. Isto significa que as cidades contemporâneas não abrigam apenas a estrutura econômica que governa todas as atividades, mas elas são a expressão mais acabada dessa racionalidade, elas materializam o tipo possível de estrutura social total identificando-se com a economia que a constitui. Servindo-me propositalmente de uma metáfora bastante inadequada, as várias áreas da economia seriam os ossos, tendões, músculos e sangue de um organismo, enquanto este seria a própria cidade. A comparação é imprópria porque uma cidade em nenhum sentido, a não ser neste formal que acabei de apontar, funciona ou existe como um organismo, mas ela é útil para o propósito aqui porque aproxima as duas ideias revelando o extremo contraste entre ambas. Um organismo é coerente em suas várias partes, integrado em suas inúmeras funções, de modo que a menor estrutura contribui equitativamente em seu equilíbrio geral. Não há partes irrelevantes, descartáveis ou que se possa desprezar na distribuição de nutrientes conforme a demanda, todas são alcançadas apesar de haver regiões de destaque cuja perda implicaria na morte do organismo. Porém, tal prioridade não atribui a tais regiões o caráter de comandantes ou dominadoras centrais. Há de fato uma comunicação e intercâmbio tão complexo, integrado, harmonioso, abrangente e constante entre as partes de um organismo que imaginar que as cidades contemporâneas seriam uma expressão ainda que metafórica em escala social e aproximada disso seria um completo absurdo.

Mas, se ela é um produto, como se compra uma cidade? Vivendo-se nela, aderindo portanto, às lógicas que a governam. Certamente que ninguém possui uma cidade como possui um carro, por exemplo, a posse é sempre parcial e relativa e se dá pela participação em suas dinâmicas, pela cumplicidade com suas leis, códigos, costumes, valores, e no consequente direito de gozar de suas benesses, quando se pertence ao grupo que a governa. Porém, não é apenas o indivíduo quem possui a cidade, mas ao contrário, ela, sob o véu da sujeição, revela que são os sujeitos os verdadeiramente possuídos por ela.

A cidade exige de seus moradores exclusividade de atenção. A jornada de trabalho é extenuante o suficiente para que poucos sejam os que têm vontade e tempo para sair de seus limites, alcançando espaços onde seu ruído não chega, onde a megalomania arquitetônica que a todo espaço telúrico ou vegetal cobre de concreto ou similar não esteja presente.

A cidade toma todas as energias não apenas no trabalho. Ela circunda os habitantes de compromissos dos quais mesmo os lúdicos não abrem chance de saída. Estes funcionam, na verdade, como contraponto ao período “sério” do dia, numa espécie de simulação de descanso já que mesmo o lazer se dá sob a lógica citadina. Porém, aqueles que têm recursos suficientes para dar um “pulo” numa praia, floresta, cachoeira, etc. não são capazes de se desvencilhar das amarras urbanas, e levam consigo todas as preocupações encarando aquele momento como uma pausa em suas vidas, e não como vida propriamente.



Historicamente distintos ontologicamente do modo urbano de vida se constituíram os quilombos. Os quilombos não surgiram como lugares de abrigo para negros em fuga. Essa é a visão mais branca possível sobre eles. Os quilombos foram a iniciativa mais poderosa, duradoura, potente que nossos ancestrais alcançaram. Os quilombos nasceram não integracionistas. Houve muitos dos nossos que por escolha, desconhecimento ou falta de recursos permaneceram nas cidades do mundo branco, mas aqueles para quem o convívio com os brancos era insuportável ou inadmissível realizaram a façanha de recriar seu próprio mundo em todos os sentidos. Se moveram para um território não ocupado por brancos, algumas vezes habitado por indígenas, onde se integraram a eles. Recriaram seus modos de relação, suas normas sociais, seus rituais, símbolos, estrutura arquitetônica e espiritualidade. Eles criaram “ilhas” de mundos livres à parte das neuróticas relações citadinas brancas, onde a interferência destes era nula. Nestas atualizações do mundo africano de origem, nossos ancestrais puderem expressar toda a plenitude de suas capacidades; integraram-se à natureza como sempre a vivenciamos; construíram um mundo sem genocídio, encarceramento, estupro, desemprego, depressão, mendicância, pobreza, todas estas mazelas do mundo branco.

As misérias inúmeras que se assomam sobre o nosso povo, e o total esgotamento do mundo branco urbano - no qual somos descartáveis como mais uma mercadoria - com a escassez de produtos básicos que se anuncia não muito distante, esse mundo em sua iminente ruína traz nova necessidade de voltarmos os olhos para o campo, a floresta como um dos únicos lugares possíveis para nosso renascimento em curto e médio prazo. É evidente que o retorno que proponho não é idêntico ao dos nossos ancestrais pioneiros na criação dos quilombos nem se aplica a todos nós. Se dirige à parte dos nossos que percebem o chamado de retorno à terra, que não se contentam com a superficialidade da sociedade do espetáculo em seu ininterrupto esforço por excitar todos os sentidos e roubar nossa atenção do presente, único momento onde a vida realmente acontece.

Precisaremos de toda uma estrutura de garantias de continuidade, e sabemos, isso não é alcançável sem poder econômico. Também será necessário levar conosco tecnologias, não todas usadas nas cidades, a maioria das quais não têm razão alguma de existência senão fazer girar a máquina de produção de valor, mas aquelas próprias ao nosso modo de vida comunitário e sustentável. Teremos que articular estratégias de relacionamento com os brancos por meio daqueles dos nossos que permanecerem na cidade como uma espécie de entreposto avançado para proteção dos que decidiram sair. Mas, certos de que o ganho em desistir de vez e de fato em todos os sentidos do mundo branco será incalculável.


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