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Os Nove Princípios de Conexão da Constelação Zulu

Atualizado: 15 de dez. de 2022


A Constelação Zulu é uma terapia inspirada e totalmente ancorada na cosmologia do povo Zulu da região de KwaZulu-Natal na África do Sul. Ela consiste na percepção de que toda pessoa faz parte de um ecossistema que transcende tempo e espaço. Esse corpo, que inclui vivos e mortos, é um organismo em que todas as partes têm igual relevância para a saúde do todo. A origem dos princípios assumidos e instanciados na Constelação Zulu se acha na figura dos (das) Sangomas (médicos/sacerdotes/professores) através do "Lançamento de Ossos", prática que sintetiza a força e sabedoria de um povo milenar ao qual devemos o conhecimento sobre a constelação como um todo. Esses princípios garantem a continuidade das redes ecossistêmicas levando aos descendentes condicionamentos e padrões saudáveis de vida. Fundamentado neles, o(a) constelador(a) pede por informações sobre a rede do cliente, e no momento da constelação, este se posiciona no centro de uma sala. Então, o(a) constelador(a) coloca as demais pessoas (em média dez) que representarão papéis, funções sociais, ou personagens da rede ecossistêmica do constelado. A partir daí, o(a) constelador(a) pede que se movam livremente pela sala até encontrarem seu lugar; só então ele(a) lê as mensagens que a rede traz pelo comportamento, sensações e posição dos representantes, e dá condução às dinâmicas e falas que a própria rede aponta como necessárias para desfazer os nós ancestrais que prendem a pessoa constelada em dinâmicas trágicas. Todo esse processo reproduz o jogo de ossos das Sangomas usando pessoas no lugar dos objetos. Porém, o(a) constelador(a) busca interferir o mínimo possível para que a rede se expresse, já que é ela quem tem toda sabedoria necessária para o que precisa vir à tona e ser visto, reconhecido, dado seu lugar. Todo o processo é conduzido com espírito de reverência pelo sagrado da experiência de cada rede ecossistêmica. Abaixo descrevo os nove princípios que conduzem a prática:

  1. Organicidade das redes: todos são parte indispensável do organismo espiritual-político-ecológico que traz um ser à existência. Independente do caráter e comportamentos de um membro humano ou não humano, uma vez que este passou a interagir significativamente com uma rede, ele tem direito pleno a ser considerado e tratado como um igual dentro dela.

  2. Senioridade: Há entre os seres uma autoridade dos anteriores que estabelece que os que nascem primeiro tem status ontológico distinto dos que nascem depois. Os primeiros passam a vida e tudo relacionado a ela (força, sabedoria, valores, bens, conhecimento, e também sofrimento, desafios, desajustes, traumas) aos posteriores, e não o contrário, cada um tem o seu lugar único de onde sua ação no mundo pode fluir. A transgressão desse lugar incorre em sofrimento.

  3. Equivalência das trocas saudáveis: o que se doa numa relação positiva ou negativa deve ser o que se recebe nas relações de mesmo status caso se pretenda manter a dinâmica em equilíbrio, saudável. Uma relação é de mesmo status quando não há anterioridade de nascimento. Assim, tanto o agradável quanto o desagradável precisa ser retribuído para que o equilíbrio se mantenha.

  4. Totalidade: Esse conceito vem da figura de mVelinqangi que é conhecido entre os Zulus como o primeiro existente, o que deu origem a partir de si a tudo que existe. Segundo essa visão, coisas e seres são, ambos, consciências, não há nada nos universos carente de consciência; a totalidade é autoconsciente, como um todo e em cada parte. Não há, portanto, nada inanimado. Não se diz com isso que todas as coisas são envolvidas por ou possuem consciência, nem que estão misturadas a um princípio divino, esta uma posição estoica, mas que as coisas são consciência. A consciência toma infinitos modos e formas, o que é percebido pela infinitude de seres, suas capacidades e coisas presentes no universo. Desse modo, os Zulus caminham em solo sagrado já que mVelinqangi é todos os aspectos da vida, que adquire também esse status. Daí assume-se na Constelação Zulu que a vida em todas as suas formas, modos e variações é consciência, é agente e deve ser servida a fim de fazer jus ao fluxo ininterrupto que constitui sua dinâmica eterna, de cuja potência somos também expressão.

  5. Ancestralidade Viva: Atualmente muito se fala sobre ancestralidade no ocidente, porém essa ideia vem sempre atrelada ao arcabouço metafísico desenraizado onde há uma cisão profunda entre os vivos e os mortos, ainda que não se diga isso explicitamente. Fala-se sobre os ancestrais e o quanto eles são importantes para nossa vida cotidiana, mas eles permanecem sendo vistos como mortos, e, a partir daí, se desenvolve uma vaga relação com eles, no mais das vezes, teórica apenas. Para os Zulu as pessoas não morrem, mas "dormem", "passam" ou são "silenciosas". Para tanto, a relação que se desenvolve com eles é tão íntima quanto com qualquer pessoa viva. Eles não figuram como uma lembrança em histórias passadas somente, ou como um momento esporádico de reconexão com suas raízes; estão presentes o tempo todo, e participam da dinâmica diária dos afazeres desde o nascer ao pôr do sol. Há um lugar pra eles no kraal (curral) e mesmo dentro da iqhugwane (casa tradicional); são alimentados, reverenciados, e a comunicação com eles se dá de diversas formas, sobretudo através das sangomas nos rituais de promoção do equilíbrio. Desse modo, a Constelação Zulu toma a realidade da vida como sendo constituída de duas partes inseparáveis, a dos vivos e a dos ancestrais que dormem, cuja participação é constante, ativa e sensível deste lado. E o sucesso de nossa vida aqui depende visceralmente do sucesso deles no outro lado; daí a necessidade de nutrirmos uma relação saudável com eles, sabendo que tanto podem nos ajudar quanto prejudicar caso não atentemos para suas reivindicações.

  6. Pampsiquismo Infinitivo: Segundo a cosmovisão zulu, acompanhando a antiquíssima máxima tóthica ou hermética, “assim como é encima, também é embaixo”, os organismos não são apenas aqueles reconhecidos no nível palpável, isto é, aqueles da nossa escala de existência. Há aqueles muito menores que nós e também muito maiores. Para os zulus a Terra é um grande organismo. Isto não é apenas metafórico, se reconhece aí que ela possui todas as funções, sistemas e elementos que um organismo humano, animal, vegetal, mas numa escala e tipos distintos. Os rios, que levam nutrientes para toda superfície e também abaixo dela, podem facilmente ser reconhecidos como o sistema circulatório. As placas tectônicas, que dão estrutura rígida à massa maleável de água e magma interno correspondem aos ossos; as florestas, apesar da ligação clichê com os pulmões, de fato cumprem papel semelhante; a atmosfera, cujas várias camadas de proteção contra os raios solares cumprem perfeitamente bem o papel do sistema imunológico, também podem ser tomadas como o tecido epitelial; com respeito ao coração, não sabemos localizá-lo numa região específica, no entanto ele certamente tem relação com a força gravitacional que faz tudo ir e vir dentro da dinâmica perfeita que envolve chuvas, oceanos, rios, montanhas, corais, florestas, desertos, e etc. Entretanto, não é necessário reconhecer equivalentes terrenos para os inúmeros sistemas que fazem do corpo humano ou animal um organismo. Se há uma característica para a cosmovisão africana, esta é a abertura para o múltiplo. Não precisamos fixar a realidade e procurar igualdades, sabemos da estrutura infinitiva do universo e que ele se diferencia a cada novo momento sem nunca deixar de ser vivo. Portanto, não é a semelhança com a estrutura funcional do corpo humano que torna a Terra um organismo, mas o reconhecimento de sua singularidade como um agente independente no universo. A Terra, como qualquer organismo, cumpre uma função no sistema do qual faz parte (o solar e galáctico); se distingue de outras estruturas de mesma escala (os planetas); possui dinâmica interna em comparação ao espaço que a circunda; teve início, tem seu desenvolvimento e terá um fim. Estes traços são suficientes para reconhecê-la como o organismo que é, e nós povos melaninados sempre o fizemos. Seguindo essa compreensão, nós, como parte do organismo Terra, certamente temos uma função que ela mesma atribuiu como qualquer célula existente num organismo recebe dele seu propósito. A história dos povos melaninados revela com fartos exemplos que somos parte harmônica com esse organismo. Embora nossas culturas expressem elevada diversidade e riqueza de formas, o elo que as une é o sempre presente senso teórico-prático de pertencimento e consequente reverência pelos processos e seres coexistentes no mesmo organismo. Tratamos a Terra como mãe no mais grato respeito por sua grandeza, beleza, significado e poder sobre nós, pequenas, mas importantes partes dela. Nós negros, como a maioria dos povos indígenas, seguimos o caminho evolutivo da integração com as diversas formas de vida: vegetais, minerais, animais, espirituais. Buscamos a espiritualidade, que longe de ser o que se entende comumente como religião, é um modo de vida não fragmentado, que percebe a inter-relação entre todas as coisas do universo e a função insubstituível que cada parte tem no todo.

  7. Mediação entre Vivos e Mortos: O sétimo princípio da Constelação Zulu é a mediação. Se entende com ela que a promoção do bem-estar e o alcance da cura é uma tarefa que exige a participação de dois mundos: o dos vivos e o dos mortos. Para isso, a pessoa responsável por estabelecer a comunicação entre os dois lados é a(o) constelador(a). Esse papel se justifica pela função das sangomas, que, na cultura Zulu, atuam operando a comunicação com os ancestrais para alcançar a sabedoria e instrução adequadas na restauração do equilíbrio interno e externo à pessoa que as consulta. Elas cumprem o papel de sacerdotes, médicas e guardiãs da memória coletiva. Desse modo, a(o) constelador(a) não apenas se coloca como representante da vontade da eco-comunidade viva, mas atua enquanto intérprete das mensagens dos mortos para os vivos e vice-versa durante a sessão, observando atentamente se um membro falecido precisa ser representado no campo e que mensagens ele quer trazer para que seja incluído novamente no sistema. Na Constelação Zulu de fato assume-se que os espíritos dos mortos se fazem presentes durante a sessão, e que é tarefa da(o) constelador(a) manejar esse fato com a coragem, cuidado e responsabilidade necessárias, não se furtando das consequências que tal fato implica.

  8. Espiritualidade e Autoconhecimento Políticos: A definição de autoconhecimento para a espiritualidade ocidental atual, a grosso modo, se apresenta sempre como um mergulhar "em si" através de práticas oriundas de diversas tradições pelo mundo como meditação, jejum, preces, mantras, visualizações, yoga, magia com ervas, cristais, etc, e perceber mais acuradamente a realidade e dinâmica das emoções, dos pensamentos e conflitos derivados daí com objetivo de harmonizar os vários elementos da psiquê e experimentar a serenidade que advém daí para depois relacionar-se com o mundo. O único problema nessa ideia é a expressão "em si". Se entende que mergulhar em si seja uma atitude totalmente individual, sem interferência ou atuação de quaisquer outras pessoas ou seres no processo. As constantes afirmações do tipo: "só vc pode alcançar seu equilíbrio", "apenas vc é responsável por suas emoções", "o caminho espiritual é solitário", etc, reforçam diariamente a visão de que o sujeito, o indivíduo, existe e de que mesmo a jornada espiritual só pode ser trilhada por ele isoladamente. E esse é o equívoco por excelência da espiritualidade contemporânea ocidental. Mergulhar em si é entrar em contato com a miríade de pessoas e seres responsáveis por termos chegado aqui, não apenas aquelas da nossa linhagem biológica direta, mas as outras que também foram e são parte da nossa rede ecossistêmica. Porque nossas aspirações, habilidades, traumas e limitações são expressão das experiências acumuladas por eles e que se acrescentam a cada novo contato. O autoconhecimento é político porque é perceber a inexorável interdependência entre nosso corpo e os alimentos que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos, portanto conhecer mais a si é perceber-se integrado visceralmente a um conjunto infinito de outros seres. Assim, de modo algum esse é um caminho sozinho, individual, porque todos esses seres participam conosco a todo o tempo do aguçamento de nossa percepção sobre nós mesmos. Não há nunca um "eu" pra depois virem os "outros"; o "nós" é sempre o caso. E agir como se houvesse um momento em que estamos separados do outro intensifica a ilusão do sujeito, da separatividade, da fragmentação; o equívoco de que podemos existir independentemente da comunidade da qual fazemos parte, o que é impossível. Outro sentido em que a Constelação Zulu parte de uma espiritualidade política se mostra na necessidade de encontro da saúde física, mental e espiritual a partir do lugar histórico e racial específico que nos encontramos como povo negríndio. Entende-se aqui que não podemos usar dos instrumentos teóricos pseudo-universais do ocidente (como a condenação absoluta da violência e do ódio, por exemplo) porque eles colaboram com a rejeição do que somos em autenticidade, das nossas necessidades urgentes e concretas, e da poderosa reivindicação de nossas redes por justiça frente à crueldade ocidental milenar sobre nós.

  9. Interdependência: Outro princípio da Constelação Zulu é a interdependência. Nela a eco-comunidade é percebida como uma rede cujos pontos de encontro são as consciências interligadas inseparavelmente num "corpo orgânico". Estas não existem como mônadas isoladas umas das outras, nem mesmo adquirem o status de existentes fora da comunidade. Em cada ação particular toda a rede é colocada em movimento. Por isso criar sofrimento na eco-comunidade é um ato de autoflagelação porque ele retornará noutro momento à fonte que o produziu. Sendo assim, pensar antes em si para depois incluir o outro nas decisões não faz sentido na visão da Constelação Zulu porque o outro da eco-comunidade, que inclui a natureza circundante também, é tão eu quanto meu próprio corpo. Por isto a interdependência é total já que o indivíduo não é um conceito ou prática Zulu, mas uma abstração derivada da percepção distorcida da realidade a partir do ego. Quando a ideia de sujeito, indivíduo não mais fizer sentido para nós, como o é para os Zulus tradicionais, quando formos capazes de agir a partir da eco-comunidade e não do eu, não precisaremos nos esforçar para agir compassivamente com o outro de nossa comunidade porque não existirá mais "o outro", apenas "nós". Mas, note que aqui se fala apenas da comunidade e não da humanidade. O universalismo não funciona sem operar violências sobre os princípios concretos de cada povo específico. A partir daí autocuidado e autoamor serão o mesmo que compaixão com o outro, benevolência e generosidade. Como disse o mestre Chögyan Trungpa em Abhidharma "o ego é uma neurose ocidental".


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